Wednesday, March 11, 2009
Monday, March 9, 2009
Werner, o duque, pega o cinema alemão pela anca
Talvez a condição transpire do contacto inaugural com a sétima arte: aos 14 anos, Werner encontra inspiração numa enciclopédia de cinema e, para pôr mãos à obra, conta a Wikipédia, subtrai à Munich Film School uma câmara de 35mm. O primeiro filme, a curta Herakles, só chegaria no entanto em 1962. O realizador empenhou parte do seu tempo na indústria metalúrgica para o poder financiar. E talvez os companheiros não soubessem que, além de aço, estava a sair daquela fábrica o Novo Cinema Alemão.
Se nos mantivermos na democracia cibernética, damos uma volta ao IMDb para tentar perceber que impressão tem o público dos primeiros trabalhos de Herzog: as primeiras curtas, realizadas ao longo da década de 60, não agradam em demasia; o mesmo se passa com as composições para a televisão. Mas é então que surge Sinais de Vida (1968; foto) e a evidência, sublinhada por Também os Anões Começaram por Baixo (1970): o futuro estaria no grande ecrã e nas longas-metragens. Os cinco títulos seguintes têm todos classificações acima dos sete pontos (em 10).
A época era a dos realizadores que tinham nascido à volta da Segunda Guerra Mundial, como são os casos do actual presidente da European Film Academy, Wim Wenders, de Volker Schlöndorff, também na direcção da EFA, ou de Rainer Werner Fassbinder, precocemente desaparecido (1945-1982). Werner estava entre eles e decidiu trocar o apelido de Stipetić (de origem croata) para Herzog — ou, traduzindo do alemão, «duque». O cinema nacional recuperava o fôlego, depois de um primeiro período de grande relevância, nos anos 20, com o famigerado expressionismo alemão.
Foi nesse período — que viveria até à década de 80 — que o termo «new wave» abalou o mundo artístico. Conhecemos bem o que fez à música, no Reino Unido, por exemplo, ou no Brasil, onde a expressão passou a «bossa nova». Em francês, diz-se «nouvelle vague». Isto não é novo e serve apenas um apetite trivial. Quanto à ainda República Federal Alemã surgia, em 1972, uma interessante (e turbulenta) colaboração entre Werner Herzog e o actor Klaus Kinski, com Aguirre, o Aventureiro.
Leia na quarta-feira, no blogue da Zero em Comportamento, sobre a relação artística entre Werner Herzog e Kalus Kinski. Amanhã divulgaremos a programação do IndieLisboa ’09 para o cineasta alemão.
Friday, March 6, 2009
Jacques Nolot filma Jacques Nolot, o homem
A experiência inaugural de Nolot na realização dista cerca de onze anos da tentativa seguinte – L’Arrière Pays –, já nas longas-metragens, em 1998. Trata-se da terceira parte de um tríptico semi-autobiográfico, que chegou primeiramente ao cinema com La Matiouette, de André Téchiné. Nolot escreve, filma e interpreta. O reconhecimento para esta nova alínea artística surgiu de Cannes, Veneza e Montreal. Consequência directa ou indirecta, o certo é que o filme seguinte demorou menos a chegar às salas.
La Chate aux Deux Têtes é de 2002. Nolot está prestes a tornar-se num cinquentão e aproveita a idade precisamente para o papel que interpreta no filme: é cliente habitual de um cinema parisiense especializado em pornografia, onde se arquitecta uma conversa entre ele, a funcionária da bilheteira e uma rapariga muito mais nova, formando uma espécie de triângulo amoroso, enquanto o sexo se vai espalhando pelos recantos do cinema. Nolot é, antes de mais, actor — essa condição permite-lhe certo vigor na manipulação da quarta parede.
Quando Avant Que J’Oublie (2007) foi exibido no Brasil, o crítico Eduardo Valente escrevia: «E se João César Monteiro fosse gay e francês? Bom, entre outras coisas, ele certamente não seria o João César Monteiro, mas ainda que este facto inegável por si só praticamente invalide a comparação, é impossível não pensar no português endiabrado ao vermos este filme de Jacques Nolot» — até pela «presença na tela deste corpo envelhecido e frágil, tornado tão mais potente pela força e vivacidade das palavras que saem de sua boca».
Em Portugal, foi na edição do ano passado do IndieLisboa que o filme estreou. Nolot mostra-nos aqui a sua visão sobre a solidão na velhice, especialmente na que toca aos homossexuais. Há sempre espelho na câmara do francês, que a pousou por momentos para integrar o elenco de Au Voleur, de Sarah Petit, onde contracena com Guillaume Depardieu, recentemente desaparecido. Em pós-produção, o filme deve fazê-lo voltar às salas ainda em 2009.
Jacques Nolot (n. 1943, Marciac) é um dos heróis independentes do IndieLisboa ’09, que vai exibir os quatro filmes realizados pelo francês.
Herzog entrevistado por Henry Rollins
Henry Rollins: «I’ve never seen anything like your documentaries.»
Thursday, March 5, 2009
Lisboa, a madrinha do sonho Patti Smith
É uma viagem, mas, em Portugal, não sai de Lisboa. Patti Smith — Dream of Life estreia hoje, em exclusivo, no City Classic Alvalade. É a segunda sala da capital a receber o documentário sobre a madrinha do punk, depois da passagem pelo Teatro Maria Matos, em 2008, programado pelo IndieMusic.
É a própria Patti Smith que narra a sua história, revendo a carreira musical e comentando os principais momentos. Acompanhamos as viagens pelo mundo, as performances e intervenções — as entrevistas, as letras das canções, as pinturas, as fotografias.
Filmado sobretudo a preto e branco, a proposta de Steven Sebring chega às salas comerciais, pelas mãos da Midas Filmes, 34 anos depois de Horses, mítico álbum de estreia de Patti Smith, e na mesma semana do todo-poderoso Watchmen.
Esta é a terceira experiência de Sebring como realizador, depois das curtas-metragens New York Stories (2003) e DKNY Road Stories (2004). O norte-americano fez carreira enquanto fotógrafo, trabalhando principalmente com modelos e estrelas do Rock. Em Dream of Life, mostra 11 anos da carreira de Smith, explorando o lado espiritual, feminista e carismático da artista de Chicago.
Wednesday, March 4, 2009
Jacques Nolot e André Techiné, da turma de ’81
O filme chegou ao público em 1981. Apenas dois anos depois, já se podia ver La Matiouette ou L’Arrière-pays, de apenas 48 minutos, adaptado a partir de uma peça de teatro de Nolot, que o próprio protagonizava e Techiné dirigia. O actor era também dramaturgo e o passo para argumentista era curto: Manège (1986) e Le Café des Jules (1989, na imagem) saíram dessa nova faceta de Nolot.
Uma década após o primeiro encontro artístico, Techiné e Nolot voltam a cruzar-se em J’Embrasse Pas (1991), o primeiro na cadeira do realizador e o segundo a escrever a estória e a adaptá-la ao cinema. As longas-metragens que os reuniam pareciam estar vaticinadas às belas actrizes — lá estava Emmanuelle Béart para ajudar à conjectura formal e Deneuve voltaria a partilhar o elenco com Nolot em Le Lieu du Crime (1986) e Ma Saison Préférée (1993), ambos de Techiné.
A lógica manteve-se com Juliette Binoche em Rendez-vous (1985), Sandrine Bonnaire em Les Innocents (1987) e outra vez com Emmanuelle Béart em Les Témoins (2007). Apesar da relação artística de quase 30 anos, Nolot ainda não chegou à primeira linha de actores nos filmes de Techiné — Deneuve, sempre ela, está em La Fille du RER, estreado há cerca de um mês no European Film Market, que aconteceu em paralelo com a Berlinale.
Jacques Nolot tem sido um actor prolífero nestas décadas. Escrever e realizar os próprios filmes — como é o caso de Avant Que J’oublie, que também protagoniza e que integrava a programação do ano passado do IndieLisboa — é ofício ao qual se tem dedicado cada vez mais, nos últimos anos.
Leia na sexta-feira, no blogue da Zero em Comportamento, sobre Jacques Nolot, o realizador.
Tuesday, March 3, 2009
Primeiro sítio oficial de César Monteiro está online
«Nasci aos 2 de Fevereiro de 1939, na Figueira da Foz. Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espírito, chamemos-lhe assim, da 1ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista», conta João César Monteiro em Fevereiro de 1973, na & etc n.º 4 (ainda era uma revista).A citação pode encontrar-se no primeiro sítio oficial de João César Monteiro. Lançado há precisamente um mês, o espaço surgiu como «homenagem aos seis anos da morte do grande Mestre» (1934-2003). Os objectivos passam pela promoção de debates sobre o artista e sobre a obra, «que contarão com a participação de profissionais de cinema, investigadores e amadores da área», lê-se no texto de apresentação. Mas não fica por aí: importa «criar, através do portal, um ponto de ligação internacional de estudo sobre a figura de Monteiro, inédito em Portugal e no mundo».
O portal pode ser consultado em português e em italiano, tradução impulsionada pela parceria com Associazione Culturale BRIO. Estão já disponíveis páginas para O Homem, O Escritor, O Realizador e O Actor, assim como para as publicações de César Monteiro. Para breve espera-se ainda pelo desenvolvimento dos espaços a que está prometida a «base de dados completa da biblioteca e fonoteca particular» do realizador de Recordações da Casa Amarela (1989).
São vários os cineastas que passam pelo Indie com uma ligação próxima à obra de César Monteiro, sendo um dos exemplos Shinji Aoyama, herói independente em 2007, que, sendo fã do cinema português, o nomeou, a par com Manoel de Oliveira e Pedro Costa, como parte das suas referências.
Monday, March 2, 2009
O orto de Jacques Nolot, o herói independente
Bob Woodward foi responsável, junto com Carl Bernstein, por esse trabalho no Washington Post. Woodward nasce em 1943. Os Rolling Stones surgem nesse mesmo ano e não duas décadas mais tarde, como é comum pensar-se: em Inglaterra, Mick Jagger e Keith Richards chegam ao mundo; a canadiana Joni Mitchell também. Do que havia reservado para o cinema, contam-se os nomes de Robert DeNiro, Ben Kingsley e Jacques Nolot (foto).
É no sudoeste de França, em Marciac, o berço deste actor e realizador, homenageado no IndieLisboa ’09 como um dos seus heróis independentes. A 31 de Agosto de 1943, data de nascimento de Nolot, ainda a comuna não era conhecida pelo festival de Jazz anual que lhe ocupa as ruas (a próxima edição começa a 7 de Março). Mudar-se-ia para Paris aos 17 anos, para cursar teatro.
Aos 30 chega às telas de cinema, em Le Dingue (1973), de Daniel Daërt. Passaria ainda pela televisão, até conhecer, na capital francesa, o realizador e argumentista André Techiné (também nascido em 1943) e voltar à sétima arte já na década de 80. Da relação artística criada entre os dois sairia quase uma dezena de trabalhos.
Leia na quarta-feira, no blogue da Zero em Comportamento, sobre a colaboração entre Jacques Nolot e André Techiné.
Sunday, March 1, 2009
Ang Lee preside ao júri de Veneza
O nome do realizador foi sugerido pelo director do festival, Marco Müller, e anunciado oficialmente este fim-de-semana. Ang Lee, que já foi distinguido por duas vezes com o Leão de Ouro — por O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Lust, Caution (2007) —, sucede assim a Wim Wenders no cargo.
Relembramos que Marco Müller, por sua vez, integra o Júri Internacional de Longas Metragens do IndieLisboa ’09.